A democracia batista é limitada pela ideologia
O artigo analisa as conquistas no campo dos Direitos Humanos alcançadas pelo protestantismo, bem como o progresso científico, escolar e econômico no ocidente. Analisa também as transformações desse mesmo protestantismo nos Estados Unidos da América, tornando-se um movimento denominacional e conversionista acima de tudo. No Brasil, analisa-se especialmente os batistas, frutos da implantação desse protestantismo de missão, salvacionista, escapista e apologético que se concentrou na salvação da alma do homem, e, ainda que tenha conquistas nas áreas sociais e dos Direitos Humanos, quando o fez, foi por motivos missionários. Por isso mesmo, as ações analisadas em um contexto histórico dentro de uma congregação local em Salvador no final do século XIX, mostram as contraditoriedades do grupo, como ajuda e discriminação ao pobre, iletrado; aproveitamento da força feminina na igreja, mas uma imposição do silêncio, fazendo-as falar apenas pela intermediação da voz autoritativa e autorizativa dos seus respectivos maridos.
PALAVRAS-CHAVES
Direitos Humanos, protestantismo, igreja, membresia, analfabetismo, exclusão.
Introdução
As ciências que estudam o fenômeno religioso atestam as obras e conquistas do protestantismo ao longo da história da Reforma no campo dos direitos humanos. Autores consagrados como Hobbes, Rousseau e Locke foram essenciais para sedimentar as bases do pensamento ocidental como a igualdade entre todos os homens, o sufrágio universal, libertação dos escravos, a educação pública e gratuita para todos, a jornada semanal de trabalho, o direito da mulher, direito das crianças e outras minorias estão entre as principais conquistas. No campo das conquistas sociais, Max Weber demonstrou como Lutero, o calvinismo e o puritanismo forjaram a superioridade da escolarização das sociedades protestantes em relação às católicas, bem como a industrialização, a produção de riqueza e uma economia de mercado.
No Brasil, semelhantemente ao que foi na Europa, algumas das conquistas sociais e leis que asseguram o direito do cidadão só aconteceram por influência direta ou com a participação dos protestantes, dentre elas, citamos: a escola pública (SOUZA, 1998), os cemitérios leigos (ARAÚJO, 2006), o casamento civil (LORDELLO, 2002), a proibição do tráfico negreiro da África para o Brasil (BETHEL, 2002), a liberdade religiosa para todos os credos (PAIVA, 2003) e o voto universal.
No Brasil, aliás, o protestantismo foi menos propositivo e mais apologético, por causa da feição estritamente missionária que tomou durante o século XIX nos Estados Unidos. Esse assunto é extenso e não daria para ser tratado aqui. O que nos interessa, nesse caso, é a coloração que tomou esse protestantismo cooptador, salvacionista e escapista que enfatizava a salvação individual e exigia uma moralidade dos convertidos para se contrapor à moralidade católica. Dessa forma, o protestantismo passou a enfatizar quase que estritamente a salvação e moralidade pessoais, em detrimento das causas humanitárias.
Ao mesmo tempo em que o protestantismo escapista e escatológico enfatizava a fuga e rejeição do mundo e exigia a moralidade individual do fiel, passou a negar, nas práticas das comunidades individuais, o direito a alguns dos princípios do próprio protestantismo: a liberdade individual, o livre exame das Escrituras e a liberdade de escolha. Para demonstrar nossa tese, fizemos uma pesquisa nas práticas dos primeiros batistas naquela que foi considerada, durante vários anos, a primeira igreja batista do Brasil, em Salvador. Nessa igreja, com suas práticas internas, foi possível mostrar como, ao mesmo tempo em que houve o cuidado com o pobre, comprando a liberdade de um escravo cujo senhor lhe proibia assistir aos cultos, essa mesma igreja se recusou a aceitar na sua membresia alguém que pedia esmola. A igreja pregava a conversão a todos, mas excluía ou não permitia o direito de membresia à determinadas pessoas. Observando-se as práticas da igreja, foi possível descobrir as complicadas relações de gênero entre homens e mulheres, negando às mesmas a dignidade de cidadãs. Negavam-se-lhes a voz, o voto e a participação nas decisões internas da igreja, ainda que fossem contadas entre a membresia para o quórum das assembléias (seções). As mulheres casadas tinham voz somente através da mediação de seus maridos.
É claro que nem todas as situações vividas no final do século XIX não são repetíveis ou podem ser reproduzidas no século XXI. No entanto, fica o convite e desafio dos autores para uma reflexão no sentido de se perguntar se os direitos humanos, tão caros ao protestantismo, continuou ou perdeu força para formas disfarçadas de dominação e a consequente perda dos direitos pessoais.
Direitos humanos e liberalismo
O protestantismo em geral e os batistas em particular, são frutos do movimento liberal da Europa seiscentista. A ideologia liberal coincide com o período de transição do feudalismo para o capitalismo, quando começaram a surgir pessoas individualistas, racionais e eficientes. Houve também mudanças no modo de produção; baseado anteriormente na subsistência, passou a privilegiar a acumulação. Não precisamos aprofundar a doutrina liberal aqui; contentar-nos-emos em citar algumas das idéias que mostram a influência do liberalismo nas conquistas dos direitos humanos.
Algumas das idéias do liberalismo influenciaram o protestantismo, dentre as quais, destacam-se: a evolução da doutrina política; uma nova teologia com o abandono do dogma religioso, - o homem pôde fazer livremente escolha do itinerário do seu destino; uma nova cosmologia; destituição da domínio da igreja da esfera econômica; o Estado como responsável pelo bem-estar social no lugar da igreja; substituição da teologia pela razão; o abandono da idéias religiosas pela busca das satisfações materiais; o individualismo; ações voltadas para o utilitarismo, onde a ética e os negócios têm suas lógicas próprias. Além disso tudo, a busca do êxito pessoal nos negócios passou a ser um alvo a ser alcançado, assim como a tolerância religiosa.
Nos Estados Unidos, berço do denominacionalismo e do protestantismo de missão, a ideologia liberal serviu aos propósitos expansionistas das igrejas, ao mesmo tempo em que propiciou algumas conquistas na área dos direitos humanos. Um exemplo disso citamos a colônia de Providence, fundada em 1633 pelo batista Roger Williams; essa colônia nasceu sob o signo da liberdade religiosa, o que assegurava, por conseguinte, os direitos humanos. Segundo Crabtree, (1936, p. 13) o decreto assinado pelo rei Charles II ilustra o que vimos afirmando:
a nossa vontade e prazer real é que nenhuma pessoa dentro da dita colônia, em nenhum tempo daqui em diante, será de maneira molestada, punida, inquietada ou chamada a juízo por qualquer diferença de opinião em matéria religiosa, e que não se perturbe atualmente a paz civil da dita colônia
Alguns fundamentos na ideologia liberal podem ser vistos nas doutrinas batistas: a competência da alma, isto é, a possibilidade de o indivíduo se relacionar com Deus sem qualquer intermediário; a liberdade individual, a possibilidade da livre escolha que o indivíduo tem, a livre interpretação da Bíblia e, segundo Crabtree (1936, p. 9), até mesmo a liberdade de renunciar a Deus: “Deus mesmo não obriga a vontade livre do homem”.
Foi também nos Estados Unidos onde o êxito pessoal, a propriedade e a liberdade atingiram o seu clímax. Segundo Hoover (Apud Ramalho, 1976, p. 40):
Nosso individualismo difere de todos os outros porque engloba esses grandes ideais: que, enquanto constituímos nossa sociedade sobre as realizações dos indivíduos, devemos salvaguardar para todos os indivíduos uma igualdade nas oportunidades de assumirem aquela posição, na comunidade, que sua inteligência, seu caráter, habilidade e ambição lhes permitem; que nós estimulamos o esforço de cada indivíduo em suas realizações ... enquanto ele, por sua vez, deve fazer frente ao essencial da roda da competição.
Seita e Igreja
Tendo lançado o fundamento da vocação por defender os direitos humanos a partir da junção entre a doutrina batista e a ideologia liberal, passamos agora a demonstrar uma virada acontecida no protestantismo missionário. Comecemos pela caracterização sociológica entre a igreja e a seita. Fazemos isso por acharmos ser importante para entender as práticas das denominações em geral, e, em especial, os batistas. Além disso, o espírito de seita é fundamental para analisar as direções religiosas de afastamento do mundo como tendo efeito direto no abandono das causas humanitárias e dos direitos humanos. A seita se caracteriza por um descontentamento com o mundo, com quem a igreja se relaciona relativamente bem.
A igreja, se caracteriza por crenças e ritos comuns, segundo Émile Durkheim (2000, p. 32). O termo igreja sugere a existência de uma coletividade determinada com práticas rituais solidárias, e uma adesão pessoal: “um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a elas aderem”. A igreja é uma comunidade visível, cujos membros se associam de forma livre, com rituais objetivos, ainda que haja espaço para manifestações subjetivas e estados interiores diferentes entre os indivíduos. A coletividade está ligada à necessidade de cada membro comungar, junto com outros dos aspectos de sua religião, dos rituais e da participação na administração burocrática do grupo. Além disso, os membros da coletividade se representam de maneira semelhante com relação ao sagrado e comungam de práticas comuns.
A igreja também se distingue por uma administração burocrática, por um corpo de sacerdotes e por sua abrangência, podendo incluir tanto uma parte da população, no caso de igrejas restritas, como uma nação inteira. Para o pensador francês, a igreja é “uma comunidade moral”, formada de todos os crentes que possuem uma mesma fé, tanto dos crentes como dos seus líderes, os sacerdotes.
Para Max Weber (1999, p. 312), uma comunidade religiosa dá origem ao conceito de confissão, de onde vem o fenômeno da religiosidade congregacional. Esse conceito inclui a presença e influência de um ou mais sacerdotes que exercem poder sobre o grupo. De acordo com o pensador alemão, o conceito de igreja inclui tanto as responsabilidades do líder, como obrigações econômicas, bem como a presença de rigores impostos aos participantes. “A paróquia medieval ocidental, anglicana, luterana, oriental, cristã e islâmica é substancialmente uma associação eclesiástica passiva com obrigações tributárias em um distrito de competência de um pároco”.
Em “A ética protestante e o “espírito” do capitalismo”, Weber (2004, p. 131, apud ARAÚJO, 2006, p. 20) aborda tipologicamente os conceitos de seita e de igreja:
A comunidade religiosa, a “Igreja visível” no linguajar usado pelas igrejas reformadas passou a ser vista exclusivamente como uma comunidade daqueles que se tornaram pessoalmente crentes e regenerados, e só destes: noutras palavras, não como “Igreja”, mas como uma “seita”.
A seita foca o indivíduo, ao invés da sociedade. As seitas enfatizam claramente uma oposição à sociedade, visto que esta se encontra cheia de males sociais. Essa interpretação do social resulta em seu próprio isolamento. Nesse sentido, a seita desenvolve um sentimento de minoria, e, como tal, vê-se perseguida tanto pela igreja dominante quanto pela sociedade. As denominações, enquanto fenômeno tipicamente norte-americano, tomaram feições de seitas naquele país. Souza (1999, p. 48, apud ARAÚJO, 2006, p. 21), utilizando-se da definição Weber, quanto às seitas, escreve:
Por serem o país do protestantismo sectário por excelência, os Estados Unidos apresentam, no grau mais puro, as qualidades distintivas do espírito da seita. Ao contrário da Igreja, em que o pertencimento é presumido desde o nascimento (o batismo na infância é o melhor exemplo disso), as seitas pressupõem a associação voluntária do membro adulto a partir de qualificações éticas adquiríveis individualmente.
A seita exerce um contínuo policiamento da consciência do indivíduo. Aliado ao exclusivismo em relação aos outros movimentos, encontra-se também diretamente ligada a exercícios de afastamento do mundo, sendo facultado ao crente relações com o mundo somente em casos extremamente necessários e inevitáveis. A igreja exerce um controle eclesiástico-policial da vida do indivíduo; policiamento que beira à inquisição. O policiamento, diga-se de passagem, não é estranho à igreja, mas é ainda muito mais forte no interior da seita.
O conceito de igreja para os batistas
No Brasil, a República foi um marco para os batistas, bem como para as outras denominações históricas, pois que, juntas, alcançaram mais liberdade religiosa. A República não representou apenas o fim do catolicismo como a religião oficial, mas a liberdade para grupos como os protestantes, maçons, e positivistas, que passaram a ter um espaço privilegiado para agir aberta e livremente na propagação das suas idéias, assim como liberdade para a prática dos seus ritos e crenças e para a edificação dos locais de cultos.
A igreja batista conforme chegou e se solidificou no Brasil, baseia-se em dois princípios próprios da cultura norte-americana: o voluntarismo e a livre escolha. Isso significa que, para os batistas, a igreja local é constituída de pessoas que, voluntária e livremente, resolvem se associar como membros. Para esse grupo, os indivíduos exercem uma vontade livre e soberana em sua decisão pessoal e se obrigam voluntariamente a um determinado tipo de vida, tanto no que se refere ao campo privado quanto social. Assim, como definido supra, a igreja batista participa do conceito de seita.
Enquanto congregação local, afirma-se que cada crente tem como privilégios: ser sacerdote de si mesmo, ler e interpretar diretamente a sua Bíblia sem uma interpretação oficial e decidir tornar-se membro da igreja. Com isso, não existe teoricamente ninguém acima do protestante. Conforme Weber, ninguém poder ajudá-lo: nenhum pregador, sacramento, igreja e nenhum Deus.
O indivíduo e a igreja batista
Como vimos, as idéias liberais forjaram algumas das doutrinas dos batistas, que, por adotá-las, passou a entender o indivíduo como um ser livre e soberano. Resta, contudo, examinar, na prática da religiosidade congregacional batista, se esses princípios são vividos de forma coerente ou não.
Ainda que os batistas se creiam “incuravelmente individualistas” e recorram à Bíblia para justificar essa afirmação, a ênfase no indivíduo livre deve ser vista com ressalvas. Como uma instituição social, a igreja cria mecanismos na sua prática que negam, no dia a dia, o individualismo ensinado na teoria. Como as demais igrejas descendentes da Reforma, ao ensinar o livre exame da Bíblia, o batista nega ao indivíduo, através do ensino em documentos como o Pacto das igrejas, da Declaração Doutrinária e estatutos das igrejas locais, que o mesmo interprete livremente a Bíblia. Nesse caso, a livre interpretação afirmada ao indivíduo será negada, ou, no mínimo, monitorada pela interpretação oficial e oficializante da igreja local. Aquele que se aventurar a interpretar a Bíblia de forma contrária ou, quando decidir ser conseqüente com a afirmação de ser um livre examinador do texto bíblico, será desencorajado por diversos modos, e, finalmente, terá de desistir de tal tarefa.
Dessa forma, o protestantismo gera um problema de competência. Visto ser o indivíduo livre, ao ponto de até mesmo Deus respeitar a liberdade de cada um, deveria resultar daí desse indivíduo ser autônomo em todos os sentidos. Mas, na religiosidade da prática congregacional, esse princípio é negado, como veremos a seguir. Deus dirige a vida do indivíduo através da interpretação oficializante da igreja. Ao aceitar a interpretação oficial do grupo, o indivíduo terá que negar-se a si mesmo, abrir mão do seu pensamento e vontade em função do pensamento congregacional. Esse modelo de administração e relação das competências tornam-se evidentes no fato de a igreja inculcar no indivíduo a necessidade de mudança de ação em todas as áreas da vida: lazer, cultural, social e sexual, e, além da inculcação, faz com que o mesmo submeta-se a um sistema de vigilância e punições por violar quaisquer preceitos nessas áreas.
Por causa do conflito de autonomia, alguém terá que ceder em função do outro. Em tais casos, normalmente é o indivíduo quem sai perdendo. Ele deve abdicar de sua liberdade ao decidir, livremente, ingressar na comunidade. Ele é livre para entrar, não para sair. Sair do grupo, uma vez integrado ao mesmo, é competência da igreja local que age através da coercitividade que o grupo exerce através da vigilância, disciplina e da exclusão.
Visto que o membro é um indivíduo livre que decidiu soberanamente ser batizado, ter incluído seu nome no rol de membros da igreja e que prometeu fidelidade e obediência aos preceitos doutrinários, ao pacto das igrejas batistas e às Escrituras, e, indiretamente, aos preceitos velados ou não da igreja, seu último ato livre foi entregar seus direitos soberanos para serem administrados pelo corpo burocrático da igreja.
Convertido o indivíduo, caberá à igreja ensiná-lo, isto é, doutriná-lo em preceitos moral, cultural e sexual. Uma vez filiado à igreja, a liberdade individual estará comprometida, de forma que, para o mesmo continuar livre, nas palavras de Teixeira (1975, p. 189, apud ARAÚJO, 2006, p. 43), teria que optar pela sua não filiação: “o uso da liberdade individual perante Deus só é possível se o homem não pertence à igreja. Fora dela, o homem pode aceitar ou não a salvação... Dentro dela, só lhe resta um caminho: o de anular-se para que seja possível sua total submissão à instituição”.
A igreja como uma instituição social, exerce tanto a coerção quanto a pressão do grupo sobre o fiel, e, por isso, suas ações são guiadas externamente pelo grupo. Ao indivíduo é exigido um alto grau de compromisso com o grupo e o rompimento com tudo o que seja denominado mundo pelo mesmo grupo. É nesse sentido que o princípio do individualismo passa a ser contraditório entre os batistas. Ser membro significa mais que aderir a um sistema de crenças, significa internalizar um conjunto de práticas doutrinárias, nem sempre claramente expostas, pois que os mesmos podem sobreviver em forma oral. Ser obediente às práticas doutrinárias é um dos sinais que o membro deve demonstrar para estar ligado à igreja. Inversamente, porém, o conceito de membresia não inclui qualquer obrigatoriedade ou responsabilidade por parte da igreja ante o adepto.
O indivíduo que deseja ou é convencido a se filiar a uma igreja batista submete-se a ter sua vida conhecida nos mais íntimos detalhes antes de ser aceito no grupo. O indivíduo também deverá demonstrar através de uma moral exterior exemplar que realmente é um convertido e assim mostrar ser digno de pertencer ao grupo. Ser membro implica em o pretendente a membro ser conhecido pela comunidade, pois, se for desconhecido, correrá o risco de ter seu pedido de batismo ou membresia recusado e comprometer sua aceitação, visto que os batistas entendem que o batismo é um ritual de iniciação de homologação da membresia na comunidade: “depois de ouvirmos algumas palavras por elle; foi a sua aceitação adiada por não o conhecermos”[1]. O exemplo a seguir é ilustrativo do vimos afirmando. O relato dá conta de um certo Amaro Francisco dos Santos, em Serrinha, Bahia, em 1941. A igreja se reservava o direito de perguntar e questionar tudo; nada devia ser encoberto: fé, vícios, estado civil e outros temas que se achassem necessárias. O pretendente a membro é colocado em uma posição de obrigatoriedade em tudo responder antes de ser aceito: sua adesão e arrependimento, demonstrações de comportamento social e moral.
Interrogado sobre o problema dos vícios, responde que todos os vícios e pecados que um homem comum pratica ele os havia praticado, mas tendo aceito Jesus Cristo, deixou tudo por ele. Um membro da igreja objetou: “Eu vi o senhor fumando cigarro hoje de manhã, quando eu vinha para a Igreja”. Fumei sim, respondeu e tenho aqui no bolso o fósforo e a carteira de cigarro, mas eu não sabia que fumar é pecado. Se para ser crente preciso deixar o cigarro, aqui está a carteira. Garanto aos irmãos que jamais porei um cigarro na minha boca, pois eu quero ser um crente de verdade, (SANTOS, 1981, p. 64, apud ARAÚJO, 2006, p. 32).
Ao ser aceito como membro, o indivíduo será ainda mais vigiado e sofrerá mais interditos. Através dos ensinos e escritos, a liderança, representante do pensamento dominante e oficial da denominação, impõe valores ao indivíduo que o mesmo terá de praticar sob pena de sofrer as sanções que o grupo lhe impuser. Esse ensino, contudo, é dado de forma mitigada, para que não haja revolta.
O papel de administradora dos bens sagrados faz com que a igreja apresente-se como a detentora do poder interpretativo das Escrituras, dando ao fiel a resposta conveniente do que deve fazer ou evitar – na maioria das vezes, mais evitar do que fazer -, a igreja se torna intérprete da realidade em que o adepto se encontra, dizendo-lhe, através de um olhar próprio que serve aos seus próprios interesses, o que é justo ou lícito praticar. As ações individuais do membro da igreja são reguladas, às vezes, aos detalhes mais sutis da vida privada.
O controle exercido pela igreja é disfarçado sob um discurso oficial amenizante, além de evitar a insubmissão, garante a adesão completa do indivíduo, toma contornos como prova de fidelidade e privilégio. O privilégio do cargo, por exemplo, serve como um fator dissimulador da dominação sobre o indivíduo, que é levado a interiorizar o discurso oficial, e, por conseguinte, negar a força coercitiva que se exerce sobre ele. Essa interiorização com vistas ao controle será passada e reforçada em todas as atividades que a igreja realiza, bem como através dos escritos oficiais: a Pregação, a Escola Dominical, os Jornais, a Declaração Doutrinária, o Pacto das Igrejas e até o registro de presença em atas das sessões regulares e extraordinárias.
De todas as formas de controle, o principal instrumento para a doutrinação sistemática da igreja sobre o indivíduo é a Escola Dominical. Criada no século XVIII na Inglaterra para ensinar e cuidar de crianças em estado de semi escravidão, a Escola Dominical com o tempo passou a servir como instrumento de doutrinamento sistemático dos fiéis para que aprendessem a forma correta do comportamento exigido pela igreja.
Dessa forma, o protestantismo pode ser reduzido a um conjunto de afirmações, teses ou doutrinas que se ensina através desse instrumento eficaz de transmissão. Nela, o fiel estará exposto aos conceitos da fé repassados pela leitura denominacional da igreja. Para que se tenha a adesão completa do indivíduo ao sistema da Escola Dominical como entidade doutrinadora oficial e hegemônica, é preciso que se negue ao mesmo indivíduo o princípio protestante do livre exame da Bíblia, bem como negar a sua capacidade de aprender por si, por suas experiências de vida. A Escola Dominical torna-se uma ocasião privilegiada para reforçar os preceitos morais, culturais e sexuais por trás de uma aplicação bíblica previamente preparada. Em vista da metodologia aplicada nessas lições, conclui-se que a Escola Dominical também funciona como um freio para que o crente que porventura esteja apto a ler e interpretar sua Bíblia individualmente, fique desestimulado, pois que as ditas lições já vêm com a interpretação oficial. Por trás de cada lição e do currículo estudado, há um currículo oculto que acaba propiciando um tipo de dominação branda, imperceptível, internalizada pelo fiel, que acaba aceitando, defendendo, transmitindo a outros e defendendo o seu uso e metodologia.
Ida e vindas nos direitos humanos: o caso de Salvador
Tendo passado pela negação de alguns princípios liberais que ajudaram a forjar a ideologia protestante pela prática interna das comunidades locais, pode-se agora tentar demonstrar com outros exemplos que ilustram os mesmos procedimentos de negação e privação por parte da igreja com setores específicos da comunidade e que começam a frequentar o grupo.
Inicialmente, damos ênfase às conquistas na área dos direitos humanos. A história dos batistas no Brasil é farta em exemplos da luta pelos direitos humanos, como logo se verá. Com o crescimento do número de igrejas batistas e a membresia constituída na sua maioria de pessoas pobres, aliada às dificuldades legais de conseguir a compra de terrenos ou casas para suas reuniões, as igrejas criaram uma Comissão Predial. Essa medida serviu como um tipo de um banco empréstimo para as igrejas com menos possibilidades financeiras. Assim, fazia-se um empréstimo e paga-se ao longo dos meses.
Em um país pobre como o Brasil, enfrentando problemas como fomes ocasionadas pelas constantes secas, surtos de doenças e crises mundiais faziam com que as perspectivas do presente e as esperanças quanto ao futuro fossem quase nulas para as pequenas igrejas que nasciam. O relato a seguir, retrata o clima de desesperança do Brasil no final do século XIX e início do século XX:
Em 1919 a 1920 um surto de febre... Depois, crises de proporções monstruosas se abateram sobre o Brasil... a crise da Estrada de Ferro em 1927; a grande e terrível seca que vai de 1930 a 1933, quando a estiagem prolongada jogava as populações sedentas e famintas pelos caminhos estorricados do Nordeste; na mesma década houve a crise do café que deixou toda a região desolada... Sem contar que, anterior à década de 30, cujo palco maior foi São Paulo, traz profundas mudanças política para o Brasil, (ANDRADE, 1998, p. 90 apud ARAÚJO, 2006, p. 36).
Em virtude dos constantes momentos de crise, os documentos pesquisados mostram a preocupação das igrejas em fazer coletas e até mesmo destinar um caixa exclusivo para os pobres. Desde os seus primeiros dias no Brasil, o pobre mereceu cuidados no interior da igreja: “Até o 1º de julho 3$000 para os pobres”[2]. Em Salvador, por exemplo, a coleta para os pobres na igreja era realizada de maneira sistemática, todo mês, no domingo em que se realizava a ceia: “O irmão Taylor propoz que as contribuições da Egreja no Domingo da cêa fossem applicadas em favor dos irmãos pobres e enfermos, sendo para este fim entregues aos irmãos diaconos”[3].
A leitura das atas da igreja de Salvador no final do século XIX e início do XX, mostram, além da pobreza, que a presença de analfabetos entre os fiéis era elevado, e talvez fossem a maioria dos congregados ali. Tendo tal situação no seio da congregação local, a liderança batista abriu um espaço nas suas reuniões para a leitura oral de documentos considerados importantes para que todos, analfabetos ou não, mas principalmente estes, tomassem conhecimento do seu conteúdo e obedecessem: “Em seguida o mesmo irmão leo o pacto da Egreja, correspondente a obrigação dos irmãos, uns para com os outros”[4]. Sugeriu-se também que uma vez por mês se fizesse a leitura do pacto da membresia, para lembrar as obrigações dos membros: “Foi apresentado pelo irmão Hilário a opinião de ser necessário ter o nosso pacto ao menos uma vez por mêz sendo esta feita na noite da Ceia do Senhor; pelo motivo de muitos irmãos não saberem lêr”[5].
Ao mesmo tempo em que a igreja tentou responder ativamente aos desafios da pobreza e analfabetismo no seu meio, em outras áreas, porém, como as relações de gênero, agiu de forma bem diferente, pois que se mantinha de acordo com os ditames culturais de seus líderes. A igreja, direta ou indiretamente, acabou por fundir duas atitudes em suas práticas: se tornou mediadora ao mediatizar a interpretação da Bíblia, ao mesmo tempo em que homologou ao homem o papel de senhor de sua esposa, subtraindo, à mulher, o direito da posse e do uso da sua voz ao decidir e falar por ela nas reuniões da igreja. A democracia tinha lá suas limitações em virtude da ideologia de seus líderes.
Assim a interpretação oficial de uma igreja batista além de estabelecer relações de dominação do grupo sobre o indivíduo, revela também um espaço privilegiado para a manutenção do sistema de dominação e exclusão das mulheres na vida social por parte dos homens. Nos documentos examinados para a formulação deste artigo, vê-se que havia privilégios concedidos somente aos homens, ao passo que as mulheres recebiam um tratamento diferenciado: “Houve uma moção para que se reunissem os irmãos e se unissem em oração cada 3ª feira... tendo sido approvado por unanimidade de votos, como clasula de não ser como reunião da igreja, mas como membros reunidos, onde as irmans podem fallar”, pois que a igreja havia decidido que as mulheres não podiam falar em público:
“Foi interrogado por um irmão, porque as irmans não podião fallar nas secções? O senr. moderador declarou que na acta antecedente já tem uma reunião especial onde as Senras. podem fallar. Foi adiado este assumpto para outra sexção e submettido a consideração de todos os irmãos”[6].
Às mulheres lhes era vedada a participação ou voz em público, no entanto, eram contadas no quorum para a realização das seções da igreja. Portanto, estando uma mulher ausente por motivo ignorado, outra mulher deveria procurá-la: “tendo comprido seu dever a irman da commissão para procurar a irman Emilia Maria, a Senra. Bagby, foi desencarregada da dita”[7]. A relação de dominação masculina na igreja pode ainda ser observado até muitos anos mais tarde através do seguinte relato: “tratou-se da irman Saturnina e foi nomeada uma commissão das irmans a ella, pelo que o irmão Antonio Marques offereceu sua mulher, o irmão Borges a delle e o irmão João Baptista a delle”[8]. Além de oferecer a sua mulher, isto é, ter a voz de mando, de poder decidir o que sua mulher deve ou pode fazer, ao homem cabia também o papel de porta-voz de sua esposa, falar por ela, apresentar o relatório de alguma atividade da qual a mulher fora incumbida de fazer:
a commissão composta das irmans D. Faustina e D. Felismina para investigarem o proceder da irmã D. Maria Josepha declarou por intermedio do irmão Hilario, que a referida irmã não se quizera prestar de modo leal a administração das supra citadas... sendo levantada a moção pelo irmão Hilario, para ser eliminada a dita, o que foi unanimemente approvada[9].
Um outro exemplo do controle da igreja pode ser dado na chamada nominal que se fazia de seus membros. Por causa da chamada nominal, cada um tinha que justificar o motivo da sua ausência: “No dia 3 de julho do corrente anno as 7½ da noite... faltando as irmans senra. Bagby e snra. Maria Valentina por justa razão”[10]. A justa razão alegada da sra. Bagby deve ser a gravidez de um de seus filhos. Como a falta às reuniões regulares, e principalmente, à reunião de negócios da igreja, era uma demonstração de interesse ou não do indivíduo pela “causa” da igreja, os ausentes deveriam ser visitados por uma comissão constituída pela igreja para esse fim. A igreja resolveu “nomear uma commissão para procurar logar onde estar a irman Emilia Maria”[11]. Nessa mesma seção é registrado a aprovação do uso de um livro que caracterizaria uma vigilância maior sobre a vida dos faltosos: “Moção para tomar o nome da rua e numero da casa e nome dos membros para serem chamados nas secções ordinarias, e deve dar cada um noticia de si, ao menos uma vêz por mêz”. A ausência seria justificada, como acontecia às vezes, quando o fiel mudava para outra cidade: “feita a chamada dos membros vimos que faltaram 5... Mayre O'Rork, por ter a ultima se mudado desta provincia para a de São Paulo, indo em plena communhão com a Egreja”[12].
A partir dos dados disponíveis, depreende-se que, à semelhança da sociedade na qual está inserida, a igreja está organizada em critérios sociais discriminatórios. Como organização social, em nada difere de outros grupos da sociedade. Longe de demonstrar a igualdade pregada, ela reflete e consagra as divisões e preconceitos sociais existentes em sua sociedade. O exemplo a seguir ilustra o tratamento discriminante que existia na igreja:
A convite do irmão moderador e pastor Taylor, reuniu-se a egreja em sessão extraordinaria para ouvir as provas de fé ... do professor Antonio Correia Ramos Tupinambá... foi feita uma moção... foi approvada... Tambem foi apresentada a Senra. Maria Palmira Perª Gallo para o mesmo fim, a qual mostrou exhuberantemente a sua fé... mas não foi recebida para o baptismo por morar ainda na casa do seu ex-amasio, e como pretende casar-se com elle, a egreja aguarda o seu baptismo até que se effectue o seu casamento. O baptismo do primeiro foi celebrado no mesmo dia pelo Pastor Taylor no tanque da casa de cultos[13].
Uma análise das diferentes abordagens que existiram entre as classes sociais que compunham a igreja batista iniciante, apresenta-se revelador. Por exemplo, a forma se aplicava os estatutos e pactos a cada grupo dentro da igreja. Em igrejas menos abastadas e com pessoas intelectualmente menos privilegiadas, exigiu-se o cumprimento dos estatutos. Teixeira estudou a composição social dos crentes batistas da Bahia a partir de 1882 e sugeriu que grande parte da população batista, até os anos 50, poderia ser enquadrada nos setores menos privilegiados da sociedade. Com isso, o cumprimento e fidelidade aos estatutos constituíam-se o padrão para se julgar o comportamento do crente.
Ser membro de uma igreja batista passou a significar sujeitar-se à disciplina, interditos e punições. Como escreveu Peter Berger (1977, p. 193, apud ARAÚJO, 2006, p. 52):
As instituições... reservam-se o direito de não só ferirem o indivíduo que as viola, mais ainda o de repreendê-lo no terreno da moral... Geralmente exprime-se num estímulo bastante eficiente, representado pela sensação de vergonha e, por vezes, de culpa, que se apossa do infrator.
Exige-se do fiel para ser membro da igreja e assim continuar, que cumpra fielmente seus ditames. Como já visto, o que o adepto crê e faz, a maneira como interpreta a Bíblia é o corolário do monopólio que a igreja exerce sobre cada um através da doutrinação internalizada. À igreja cabe não apenas a negação da livre interpretação das Escrituras pelo membro, mas o monopólio da interpretação é de tal forma internalizado que, quando o indivíduo manuseasse o texto bíblico o faria a partir da mediação dos óculos denominacionais. O direito, que antes pertencia ao indivíduo, é entregue por este à igreja no ato da sua filiação. A partir de então, não exite direitos na filiação, somente deveres e obrigações. Na igreja, o direito é retirado do indivíduo para ser instalado na comunidade. O livro de Atas da igreja em Salvador registra o seguinte episódio que ilustra o que vimos afirmando:
Depois do culto da manhã... reuniu-se para tratar do mau procedimento da irman Angela Lessa, pois esta professando ser christan não tem vivido como Christo manda. A egreja tendo considerado n'este assumpto e conhecendo que a dita irman é indigna de ser membro d'este egreja de Christo, resolveu illiminal-a a bem da cauza de Christo, de accordo com a Santa Biblia. Foi feita uma moção n'este sentido e sendo favorecida foi approvada por unanimidade. O irmão Taylor pastor da egreja, pediu a todos os irmãos que não fallassem nem bem nem mal da mesma irman, mas que rogassem a Deus por ella...[14]
Dessa forma, um sistema de dominação pode ser sustentado por mecanismos ideológicos, ao se manter-se velado ao mesmo tempo em que contribui para a reprodução da ordem social e da permanência da dominação:
que tal sistema instaura quando dissimula sob a relação patente, garantida por ele, entre diplomas e cargos, a relação que ele registra sub-repticiamente, sob a aparência de igualdade formal... através da legitimação que fornece assim à transmissão desta forma de herança. Os efeitos ideológicos mais óbvios são aqueles que, para se exercerem, não precisam de palavras, mas do silêncio cúmplice[15].
Tendo visto a negação do direito de voz e voto às mulheres, resta mostrar como os direitos individuais foram tratados no sistema burocrático da igreja, ou seja, na composição da sua liderança. O governo da igreja batista local pertence, por princípio, a qualquer um dos seus membros. No entanto, sua prática revela, no fundo, a tendência em negar o princípio da participação igualitária de todos em função dos mais hábeis, dos financeiramente mais aquinhoados e dos intelectualmente mais dotados. Essa realidade é claramente expressada na denominação a partir da arquitetura e composição da direção da Convenção, também pode ser retratada na igreja local. A administração da igreja fica nas mãos de poucos. No início do movimento batista no Brasil, a liderança e decisões eram de competência do missionário. À igreja coube homologar a decisão autárquica do missionário que também se auto intitulou responsável por todas as igrejas de uma região. Quando o missionário não estava diretamente à frente do trabalho, lá estava um seu amigo que mantinha a estrutura de mando que o mesmo havia inaugurado. Teixeira escreveu (1975, p. 152 apud ARAÚJO, 2006, p. 62): “Como introdutores da doutrina no Brasil, esses homens sempre reservaram para si o papel orientador e coordenador do trabalho denominacional. Tudo lhes favorecia: o conhecimento mais profundo da doutrina, o melhor nível intelectual, o dinheiro”.
Tendo começado com adeptos das camadas mais pobres da sociedade, a igreja logo tenderá a assumir o papel de uma comunidade com pensamentos e atitudes de classe média. Isso tem a ver com uma moralidade interna e ideologia próprias, e, com isso, nega o direito à membresia aos economicamente menos favorecidos como já vimos. Teixeira (1983, pags. 151-2, apud ARAÚJO, 2006, p. 62) citou o caso de uma igreja na Bahia que recusou aceitar como membro um mendigo ou de repreender um dos membros que ainda mantinha o costume de mendigar:
Quanto à sua profissão, respondeu que devido ao seu estado físico, completamente aleijado, vive de esmolas, o que faz nos lugares populosos, em atenção aos transeuntes que lhe estendem a mão. O irmão J. F. fala sobre a profissão de fé do candidato dizendo que não seria contra a aceitação do mesmo, não fosse a sua profissão que torna o evangelho muito humilhante, e uma vez que a Igreja não poderá sustentar o candidato ou arranjar outra profissão, vota contra a aceitação do mesmo, estando porém a qualquer tempo disposto a aceitá-lo caso venha a arranjar outra ocupação mais lícita.
Com uma membresia pertencente à classe média, com um nome a zelar, a mendicância exercida por um dos seus futuros candidatos a membros tornaria a mensagem do evangelho indigna. Por isso, a recusa em aceitar o mendigo, ainda que nada tenha sido feito em seu favor para que saísse daquele estado. A responsabilidade de sair do estado em que se encontrava estava totalmente com o indivíduo. Daí, como afirmamos anteriormente: ao membro da igreja batista cabe a obrigação, à igreja, os direitos.
A igreja, ao enfatizar a democracia, nega à maioria da sua membresia o acesso e a participação nessa mesma democracia. Além disso, o direito individual é negado aos que estão privados de uma educação mínima. Participar de uma igreja inclui algumas responsabilidades que se exige dos adeptos; por exemplo, uma alfabetização mínima. Atividades como escrever (secretário de atas), ler (atas, relatórios da EBD, relatório financeiro, Bíblia, os cânticos), contar (tesouraria) e ensinar (pregar, ensinar na EBD), já eliminam parte substantiva da sua membresia, geralmente constituída de pessoas das classes mais baixas, e, por conseguinte, analfabeta. Eleger uma diretoria da igreja torna-se, por si mesma, uma atividade que, ao se propor democrática, resulta uma tarefa e um privilégio de poucos, e, por conseguinte, excludente. Não à toa a membresia de uma igreja tenha se associado à pessoas da classe média, pois só ela tem acesso aos dois principais instrumentos do culto batista: ler o livro – Bíblia e cantar os cânticos do Cantor Cristão, o hinário dos batistas lançado em 1901.
Ser protestante requer, portanto, ser instrumentado na leitura, pois é necessário ler os cânticos, a Bíblia, as lições da EBD, o jornal editado pelos missionários, os livros devocionais[16] e os folhetos com os quais faziam proselitismo. Mais, a participação direta no governo da igreja local e da denominação em particular exigia a criação de uma forma de acesso da população em geral e dos membros da igreja ao conteúdo do ensino, culto e pregação. Ensinar o povo era um imperativo que a própria religião impunha aos líderes.
Conclusão
Os autores estão cientes do perigo do anacronismo por detrás deste artigo. Reconhecemos que a situação no século XXI no interior da igreja batista não é o mesmo. No entanto, assim como no final do século XIX algumas respostas foram dadas a contento, outras necessidades se perpetuaram e reproduziram a sociedade de então, hoje, a igreja batista enfrenta desafios para os quais ainda não se achou solução, como a pobreza, corrupção, violência contra as minorias, ecologia e meio ambiente. Por outro lado, a mulher ainda está numa condição de inferioridade, tanto cultural, como social e eclesiástica. Recentemente Araújo demonstrou através dos textos “Presbiocracia”[17] e “Androdicéia”[18] que a questão da mulher na igreja batista continua praticamente igual como fora desde o princípio das primeiras congregações no Brasil.
Por outro lado, a igreja não apenas se mostrou não propositiva nas questões sociais e dos direitos humanos ao longo do século XX, como, através de um silêncio acachapante se escondeu, negando a sua vocação profética diante de tantos males sociais que caracterizaram o século XX. E, ao se calar, negou sua vocação para defender e avançar nas conquistas dos direitos humanos, ao passo que, se o ditado de que “quem cala, consente” está certo, a igreja homologou os regimes ditatoriais nos países chamados terceiro mundo, especialmente na América Latina, os massacres e as guerras contra as minorias ao longo deste século recentemente terminado.
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ABSTRACT
This article reviews the achievements in the field of Human Rights reached by the Protestantism and the scientific, educational and economic progress in Europe. It also analyzes the changes of Protestantism in the United States, becoming a denominational and conversion movement above all. In Brazil, it especially analyzes the Baptists, the result of deployment of the Protestantism of mission, salvation, escape and apology which focused on the salvation of man, and, even it has obtained some achievements in social areas and human rights, when did, was due to conversionist causes. Therefore, the actions analyzed in a historical context within a local congregation in Salvador, Bahia, in the late nineteenth century, show the contradictories of this group such as discrimination and aid to the poor, illiterate, women's use of work in the church, but a levy of silence, making them speak only by the intermediation of authoritative and authorizative voice of their husbands.
KEY-WORDS
Human rights, protestantism, church, membership, analfabetism, exclusion.
14
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[1] Ata da Igreja Batista de Jaguaquara, 4 de Agosto de 1928
[2] Acta 7ª – 3ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Julho de 1883
[3] Acta 62ª – 21ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 2 de Fevereiro de 1885
[4] Acta 68ª -23ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 6 de Abril de 1885
[5] Acta 103ª - 65ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Maio de 1886
[6] Acta 10ª – 6ª secção ordinaria da Primeira Igreja Batista da Bahia, 9 de Outubro de 1883
[7] Acta 18ª – 9ª secção ordinaria da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Janeiro de 1884
[8] Acta 86ª – 33ª secção ordinaria da Primeira Igreja Batista da Bahia, 7 de Dezembro de 1885. É possível encontrar interditos contra mulheres falando nas igreja batistas até a década dos vinte em pleno século XX, em Salvador (itálicos dos autores).
[9] Acta 162ª – 69ª secção ordinaria da Premeira Igreja Batista da Bahia, 12 de Maio de 1889
[10] Acta 7ª – 3ª secção ordinária, 1883
[11] Acta 17ª – 8ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Janeiro de 1884
[12] Acta 23ª – 10ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 14 de Fevereiro de 1884
[13] Acta 242 sessão extraordinária 142, 13 de Dezembro de 1892
[14] Acta 237 – Sessão extraordinaria 139, 3 outubro de 1892
[15] BOURDIEU, Pierre. In: CATANI, Afranio & NOGUEIRA, M. Alice, Escritos de educação. Petrópolis: Vozes. 2001, pags 193-213.
[16] Um dos livros devocionais mais lidos pelos batistas nos últimos três séculos foi o ensaio escrito por um batista inglês chamado John Bunyan, no século XVII: O Peregrino (Pilgrim's Progress). Depois da Bíblia, esse livro foi traduzido para mais de cem línguas. Carlos Dubois escreveu um ensaio sobre Bunyan por ocasião do término do seu curso de Teologia em Recife. O escrito foi publicado em forma de livro em 1968.
[17] ARAÚJO, J. P. G. Presbiocracia. Brasília, 26/ março/2009. Disponível em www.projetoamor.com/
[18] ARAÚJO, J. P. G. Androdicéia. Brasília, 04/ maio/2009. Disponível em www.projetoamor.com/
Autores:
Cláudia Heloisa Schmeiske da Silva é Bacharel em Letras/Francês pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho – Paraná, FAFIJA, (2001); Especialização em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Estadual de Londrina, UEL, PR, (2003); Especialização, em Psicopedagogia, pela Universidade Católica de Brasília, (2007); Mestre em Educação pela Universidade de Brasília, UnB (2007); Doutoranda em Educação pela Universidade de Brasília, UnB. Professora e Coordenadora do curso de Letras da Faculdade Evangélica de Brasília.
João Pedro Gonçalves Araújo é Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Brasília (1984); Bacharel em Filosofia pela Universidade de Brasília, UnB (1995); Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, UMESP, (2001) e Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília, UnB (2006), é pastor da Igreja Batista no Lago Sul (Brasília, DF) e professor na Faculdade Evangélica de Brasília (Letras e Pedagogia) e professor na Faculdade Teológica Batista de Brasília (Teologia), membro do conselho editorial da Revista Eletrônica da Faculdade Evangélica de Brasília.
PALAVRAS-CHAVES
Direitos Humanos, protestantismo, igreja, membresia, analfabetismo, exclusão.
Introdução
As ciências que estudam o fenômeno religioso atestam as obras e conquistas do protestantismo ao longo da história da Reforma no campo dos direitos humanos. Autores consagrados como Hobbes, Rousseau e Locke foram essenciais para sedimentar as bases do pensamento ocidental como a igualdade entre todos os homens, o sufrágio universal, libertação dos escravos, a educação pública e gratuita para todos, a jornada semanal de trabalho, o direito da mulher, direito das crianças e outras minorias estão entre as principais conquistas. No campo das conquistas sociais, Max Weber demonstrou como Lutero, o calvinismo e o puritanismo forjaram a superioridade da escolarização das sociedades protestantes em relação às católicas, bem como a industrialização, a produção de riqueza e uma economia de mercado.
No Brasil, semelhantemente ao que foi na Europa, algumas das conquistas sociais e leis que asseguram o direito do cidadão só aconteceram por influência direta ou com a participação dos protestantes, dentre elas, citamos: a escola pública (SOUZA, 1998), os cemitérios leigos (ARAÚJO, 2006), o casamento civil (LORDELLO, 2002), a proibição do tráfico negreiro da África para o Brasil (BETHEL, 2002), a liberdade religiosa para todos os credos (PAIVA, 2003) e o voto universal.
No Brasil, aliás, o protestantismo foi menos propositivo e mais apologético, por causa da feição estritamente missionária que tomou durante o século XIX nos Estados Unidos. Esse assunto é extenso e não daria para ser tratado aqui. O que nos interessa, nesse caso, é a coloração que tomou esse protestantismo cooptador, salvacionista e escapista que enfatizava a salvação individual e exigia uma moralidade dos convertidos para se contrapor à moralidade católica. Dessa forma, o protestantismo passou a enfatizar quase que estritamente a salvação e moralidade pessoais, em detrimento das causas humanitárias.
Ao mesmo tempo em que o protestantismo escapista e escatológico enfatizava a fuga e rejeição do mundo e exigia a moralidade individual do fiel, passou a negar, nas práticas das comunidades individuais, o direito a alguns dos princípios do próprio protestantismo: a liberdade individual, o livre exame das Escrituras e a liberdade de escolha. Para demonstrar nossa tese, fizemos uma pesquisa nas práticas dos primeiros batistas naquela que foi considerada, durante vários anos, a primeira igreja batista do Brasil, em Salvador. Nessa igreja, com suas práticas internas, foi possível mostrar como, ao mesmo tempo em que houve o cuidado com o pobre, comprando a liberdade de um escravo cujo senhor lhe proibia assistir aos cultos, essa mesma igreja se recusou a aceitar na sua membresia alguém que pedia esmola. A igreja pregava a conversão a todos, mas excluía ou não permitia o direito de membresia à determinadas pessoas. Observando-se as práticas da igreja, foi possível descobrir as complicadas relações de gênero entre homens e mulheres, negando às mesmas a dignidade de cidadãs. Negavam-se-lhes a voz, o voto e a participação nas decisões internas da igreja, ainda que fossem contadas entre a membresia para o quórum das assembléias (seções). As mulheres casadas tinham voz somente através da mediação de seus maridos.
É claro que nem todas as situações vividas no final do século XIX não são repetíveis ou podem ser reproduzidas no século XXI. No entanto, fica o convite e desafio dos autores para uma reflexão no sentido de se perguntar se os direitos humanos, tão caros ao protestantismo, continuou ou perdeu força para formas disfarçadas de dominação e a consequente perda dos direitos pessoais.
Direitos humanos e liberalismo
O protestantismo em geral e os batistas em particular, são frutos do movimento liberal da Europa seiscentista. A ideologia liberal coincide com o período de transição do feudalismo para o capitalismo, quando começaram a surgir pessoas individualistas, racionais e eficientes. Houve também mudanças no modo de produção; baseado anteriormente na subsistência, passou a privilegiar a acumulação. Não precisamos aprofundar a doutrina liberal aqui; contentar-nos-emos em citar algumas das idéias que mostram a influência do liberalismo nas conquistas dos direitos humanos.
Algumas das idéias do liberalismo influenciaram o protestantismo, dentre as quais, destacam-se: a evolução da doutrina política; uma nova teologia com o abandono do dogma religioso, - o homem pôde fazer livremente escolha do itinerário do seu destino; uma nova cosmologia; destituição da domínio da igreja da esfera econômica; o Estado como responsável pelo bem-estar social no lugar da igreja; substituição da teologia pela razão; o abandono da idéias religiosas pela busca das satisfações materiais; o individualismo; ações voltadas para o utilitarismo, onde a ética e os negócios têm suas lógicas próprias. Além disso tudo, a busca do êxito pessoal nos negócios passou a ser um alvo a ser alcançado, assim como a tolerância religiosa.
Nos Estados Unidos, berço do denominacionalismo e do protestantismo de missão, a ideologia liberal serviu aos propósitos expansionistas das igrejas, ao mesmo tempo em que propiciou algumas conquistas na área dos direitos humanos. Um exemplo disso citamos a colônia de Providence, fundada em 1633 pelo batista Roger Williams; essa colônia nasceu sob o signo da liberdade religiosa, o que assegurava, por conseguinte, os direitos humanos. Segundo Crabtree, (1936, p. 13) o decreto assinado pelo rei Charles II ilustra o que vimos afirmando:
a nossa vontade e prazer real é que nenhuma pessoa dentro da dita colônia, em nenhum tempo daqui em diante, será de maneira molestada, punida, inquietada ou chamada a juízo por qualquer diferença de opinião em matéria religiosa, e que não se perturbe atualmente a paz civil da dita colônia
Alguns fundamentos na ideologia liberal podem ser vistos nas doutrinas batistas: a competência da alma, isto é, a possibilidade de o indivíduo se relacionar com Deus sem qualquer intermediário; a liberdade individual, a possibilidade da livre escolha que o indivíduo tem, a livre interpretação da Bíblia e, segundo Crabtree (1936, p. 9), até mesmo a liberdade de renunciar a Deus: “Deus mesmo não obriga a vontade livre do homem”.
Foi também nos Estados Unidos onde o êxito pessoal, a propriedade e a liberdade atingiram o seu clímax. Segundo Hoover (Apud Ramalho, 1976, p. 40):
Nosso individualismo difere de todos os outros porque engloba esses grandes ideais: que, enquanto constituímos nossa sociedade sobre as realizações dos indivíduos, devemos salvaguardar para todos os indivíduos uma igualdade nas oportunidades de assumirem aquela posição, na comunidade, que sua inteligência, seu caráter, habilidade e ambição lhes permitem; que nós estimulamos o esforço de cada indivíduo em suas realizações ... enquanto ele, por sua vez, deve fazer frente ao essencial da roda da competição.
Seita e Igreja
Tendo lançado o fundamento da vocação por defender os direitos humanos a partir da junção entre a doutrina batista e a ideologia liberal, passamos agora a demonstrar uma virada acontecida no protestantismo missionário. Comecemos pela caracterização sociológica entre a igreja e a seita. Fazemos isso por acharmos ser importante para entender as práticas das denominações em geral, e, em especial, os batistas. Além disso, o espírito de seita é fundamental para analisar as direções religiosas de afastamento do mundo como tendo efeito direto no abandono das causas humanitárias e dos direitos humanos. A seita se caracteriza por um descontentamento com o mundo, com quem a igreja se relaciona relativamente bem.
A igreja, se caracteriza por crenças e ritos comuns, segundo Émile Durkheim (2000, p. 32). O termo igreja sugere a existência de uma coletividade determinada com práticas rituais solidárias, e uma adesão pessoal: “um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a elas aderem”. A igreja é uma comunidade visível, cujos membros se associam de forma livre, com rituais objetivos, ainda que haja espaço para manifestações subjetivas e estados interiores diferentes entre os indivíduos. A coletividade está ligada à necessidade de cada membro comungar, junto com outros dos aspectos de sua religião, dos rituais e da participação na administração burocrática do grupo. Além disso, os membros da coletividade se representam de maneira semelhante com relação ao sagrado e comungam de práticas comuns.
A igreja também se distingue por uma administração burocrática, por um corpo de sacerdotes e por sua abrangência, podendo incluir tanto uma parte da população, no caso de igrejas restritas, como uma nação inteira. Para o pensador francês, a igreja é “uma comunidade moral”, formada de todos os crentes que possuem uma mesma fé, tanto dos crentes como dos seus líderes, os sacerdotes.
Para Max Weber (1999, p. 312), uma comunidade religiosa dá origem ao conceito de confissão, de onde vem o fenômeno da religiosidade congregacional. Esse conceito inclui a presença e influência de um ou mais sacerdotes que exercem poder sobre o grupo. De acordo com o pensador alemão, o conceito de igreja inclui tanto as responsabilidades do líder, como obrigações econômicas, bem como a presença de rigores impostos aos participantes. “A paróquia medieval ocidental, anglicana, luterana, oriental, cristã e islâmica é substancialmente uma associação eclesiástica passiva com obrigações tributárias em um distrito de competência de um pároco”.
Em “A ética protestante e o “espírito” do capitalismo”, Weber (2004, p. 131, apud ARAÚJO, 2006, p. 20) aborda tipologicamente os conceitos de seita e de igreja:
A comunidade religiosa, a “Igreja visível” no linguajar usado pelas igrejas reformadas passou a ser vista exclusivamente como uma comunidade daqueles que se tornaram pessoalmente crentes e regenerados, e só destes: noutras palavras, não como “Igreja”, mas como uma “seita”.
A seita foca o indivíduo, ao invés da sociedade. As seitas enfatizam claramente uma oposição à sociedade, visto que esta se encontra cheia de males sociais. Essa interpretação do social resulta em seu próprio isolamento. Nesse sentido, a seita desenvolve um sentimento de minoria, e, como tal, vê-se perseguida tanto pela igreja dominante quanto pela sociedade. As denominações, enquanto fenômeno tipicamente norte-americano, tomaram feições de seitas naquele país. Souza (1999, p. 48, apud ARAÚJO, 2006, p. 21), utilizando-se da definição Weber, quanto às seitas, escreve:
Por serem o país do protestantismo sectário por excelência, os Estados Unidos apresentam, no grau mais puro, as qualidades distintivas do espírito da seita. Ao contrário da Igreja, em que o pertencimento é presumido desde o nascimento (o batismo na infância é o melhor exemplo disso), as seitas pressupõem a associação voluntária do membro adulto a partir de qualificações éticas adquiríveis individualmente.
A seita exerce um contínuo policiamento da consciência do indivíduo. Aliado ao exclusivismo em relação aos outros movimentos, encontra-se também diretamente ligada a exercícios de afastamento do mundo, sendo facultado ao crente relações com o mundo somente em casos extremamente necessários e inevitáveis. A igreja exerce um controle eclesiástico-policial da vida do indivíduo; policiamento que beira à inquisição. O policiamento, diga-se de passagem, não é estranho à igreja, mas é ainda muito mais forte no interior da seita.
O conceito de igreja para os batistas
No Brasil, a República foi um marco para os batistas, bem como para as outras denominações históricas, pois que, juntas, alcançaram mais liberdade religiosa. A República não representou apenas o fim do catolicismo como a religião oficial, mas a liberdade para grupos como os protestantes, maçons, e positivistas, que passaram a ter um espaço privilegiado para agir aberta e livremente na propagação das suas idéias, assim como liberdade para a prática dos seus ritos e crenças e para a edificação dos locais de cultos.
A igreja batista conforme chegou e se solidificou no Brasil, baseia-se em dois princípios próprios da cultura norte-americana: o voluntarismo e a livre escolha. Isso significa que, para os batistas, a igreja local é constituída de pessoas que, voluntária e livremente, resolvem se associar como membros. Para esse grupo, os indivíduos exercem uma vontade livre e soberana em sua decisão pessoal e se obrigam voluntariamente a um determinado tipo de vida, tanto no que se refere ao campo privado quanto social. Assim, como definido supra, a igreja batista participa do conceito de seita.
Enquanto congregação local, afirma-se que cada crente tem como privilégios: ser sacerdote de si mesmo, ler e interpretar diretamente a sua Bíblia sem uma interpretação oficial e decidir tornar-se membro da igreja. Com isso, não existe teoricamente ninguém acima do protestante. Conforme Weber, ninguém poder ajudá-lo: nenhum pregador, sacramento, igreja e nenhum Deus.
O indivíduo e a igreja batista
Como vimos, as idéias liberais forjaram algumas das doutrinas dos batistas, que, por adotá-las, passou a entender o indivíduo como um ser livre e soberano. Resta, contudo, examinar, na prática da religiosidade congregacional batista, se esses princípios são vividos de forma coerente ou não.
Ainda que os batistas se creiam “incuravelmente individualistas” e recorram à Bíblia para justificar essa afirmação, a ênfase no indivíduo livre deve ser vista com ressalvas. Como uma instituição social, a igreja cria mecanismos na sua prática que negam, no dia a dia, o individualismo ensinado na teoria. Como as demais igrejas descendentes da Reforma, ao ensinar o livre exame da Bíblia, o batista nega ao indivíduo, através do ensino em documentos como o Pacto das igrejas, da Declaração Doutrinária e estatutos das igrejas locais, que o mesmo interprete livremente a Bíblia. Nesse caso, a livre interpretação afirmada ao indivíduo será negada, ou, no mínimo, monitorada pela interpretação oficial e oficializante da igreja local. Aquele que se aventurar a interpretar a Bíblia de forma contrária ou, quando decidir ser conseqüente com a afirmação de ser um livre examinador do texto bíblico, será desencorajado por diversos modos, e, finalmente, terá de desistir de tal tarefa.
Dessa forma, o protestantismo gera um problema de competência. Visto ser o indivíduo livre, ao ponto de até mesmo Deus respeitar a liberdade de cada um, deveria resultar daí desse indivíduo ser autônomo em todos os sentidos. Mas, na religiosidade da prática congregacional, esse princípio é negado, como veremos a seguir. Deus dirige a vida do indivíduo através da interpretação oficializante da igreja. Ao aceitar a interpretação oficial do grupo, o indivíduo terá que negar-se a si mesmo, abrir mão do seu pensamento e vontade em função do pensamento congregacional. Esse modelo de administração e relação das competências tornam-se evidentes no fato de a igreja inculcar no indivíduo a necessidade de mudança de ação em todas as áreas da vida: lazer, cultural, social e sexual, e, além da inculcação, faz com que o mesmo submeta-se a um sistema de vigilância e punições por violar quaisquer preceitos nessas áreas.
Por causa do conflito de autonomia, alguém terá que ceder em função do outro. Em tais casos, normalmente é o indivíduo quem sai perdendo. Ele deve abdicar de sua liberdade ao decidir, livremente, ingressar na comunidade. Ele é livre para entrar, não para sair. Sair do grupo, uma vez integrado ao mesmo, é competência da igreja local que age através da coercitividade que o grupo exerce através da vigilância, disciplina e da exclusão.
Visto que o membro é um indivíduo livre que decidiu soberanamente ser batizado, ter incluído seu nome no rol de membros da igreja e que prometeu fidelidade e obediência aos preceitos doutrinários, ao pacto das igrejas batistas e às Escrituras, e, indiretamente, aos preceitos velados ou não da igreja, seu último ato livre foi entregar seus direitos soberanos para serem administrados pelo corpo burocrático da igreja.
Convertido o indivíduo, caberá à igreja ensiná-lo, isto é, doutriná-lo em preceitos moral, cultural e sexual. Uma vez filiado à igreja, a liberdade individual estará comprometida, de forma que, para o mesmo continuar livre, nas palavras de Teixeira (1975, p. 189, apud ARAÚJO, 2006, p. 43), teria que optar pela sua não filiação: “o uso da liberdade individual perante Deus só é possível se o homem não pertence à igreja. Fora dela, o homem pode aceitar ou não a salvação... Dentro dela, só lhe resta um caminho: o de anular-se para que seja possível sua total submissão à instituição”.
A igreja como uma instituição social, exerce tanto a coerção quanto a pressão do grupo sobre o fiel, e, por isso, suas ações são guiadas externamente pelo grupo. Ao indivíduo é exigido um alto grau de compromisso com o grupo e o rompimento com tudo o que seja denominado mundo pelo mesmo grupo. É nesse sentido que o princípio do individualismo passa a ser contraditório entre os batistas. Ser membro significa mais que aderir a um sistema de crenças, significa internalizar um conjunto de práticas doutrinárias, nem sempre claramente expostas, pois que os mesmos podem sobreviver em forma oral. Ser obediente às práticas doutrinárias é um dos sinais que o membro deve demonstrar para estar ligado à igreja. Inversamente, porém, o conceito de membresia não inclui qualquer obrigatoriedade ou responsabilidade por parte da igreja ante o adepto.
O indivíduo que deseja ou é convencido a se filiar a uma igreja batista submete-se a ter sua vida conhecida nos mais íntimos detalhes antes de ser aceito no grupo. O indivíduo também deverá demonstrar através de uma moral exterior exemplar que realmente é um convertido e assim mostrar ser digno de pertencer ao grupo. Ser membro implica em o pretendente a membro ser conhecido pela comunidade, pois, se for desconhecido, correrá o risco de ter seu pedido de batismo ou membresia recusado e comprometer sua aceitação, visto que os batistas entendem que o batismo é um ritual de iniciação de homologação da membresia na comunidade: “depois de ouvirmos algumas palavras por elle; foi a sua aceitação adiada por não o conhecermos”[1]. O exemplo a seguir é ilustrativo do vimos afirmando. O relato dá conta de um certo Amaro Francisco dos Santos, em Serrinha, Bahia, em 1941. A igreja se reservava o direito de perguntar e questionar tudo; nada devia ser encoberto: fé, vícios, estado civil e outros temas que se achassem necessárias. O pretendente a membro é colocado em uma posição de obrigatoriedade em tudo responder antes de ser aceito: sua adesão e arrependimento, demonstrações de comportamento social e moral.
Interrogado sobre o problema dos vícios, responde que todos os vícios e pecados que um homem comum pratica ele os havia praticado, mas tendo aceito Jesus Cristo, deixou tudo por ele. Um membro da igreja objetou: “Eu vi o senhor fumando cigarro hoje de manhã, quando eu vinha para a Igreja”. Fumei sim, respondeu e tenho aqui no bolso o fósforo e a carteira de cigarro, mas eu não sabia que fumar é pecado. Se para ser crente preciso deixar o cigarro, aqui está a carteira. Garanto aos irmãos que jamais porei um cigarro na minha boca, pois eu quero ser um crente de verdade, (SANTOS, 1981, p. 64, apud ARAÚJO, 2006, p. 32).
Ao ser aceito como membro, o indivíduo será ainda mais vigiado e sofrerá mais interditos. Através dos ensinos e escritos, a liderança, representante do pensamento dominante e oficial da denominação, impõe valores ao indivíduo que o mesmo terá de praticar sob pena de sofrer as sanções que o grupo lhe impuser. Esse ensino, contudo, é dado de forma mitigada, para que não haja revolta.
O papel de administradora dos bens sagrados faz com que a igreja apresente-se como a detentora do poder interpretativo das Escrituras, dando ao fiel a resposta conveniente do que deve fazer ou evitar – na maioria das vezes, mais evitar do que fazer -, a igreja se torna intérprete da realidade em que o adepto se encontra, dizendo-lhe, através de um olhar próprio que serve aos seus próprios interesses, o que é justo ou lícito praticar. As ações individuais do membro da igreja são reguladas, às vezes, aos detalhes mais sutis da vida privada.
O controle exercido pela igreja é disfarçado sob um discurso oficial amenizante, além de evitar a insubmissão, garante a adesão completa do indivíduo, toma contornos como prova de fidelidade e privilégio. O privilégio do cargo, por exemplo, serve como um fator dissimulador da dominação sobre o indivíduo, que é levado a interiorizar o discurso oficial, e, por conseguinte, negar a força coercitiva que se exerce sobre ele. Essa interiorização com vistas ao controle será passada e reforçada em todas as atividades que a igreja realiza, bem como através dos escritos oficiais: a Pregação, a Escola Dominical, os Jornais, a Declaração Doutrinária, o Pacto das Igrejas e até o registro de presença em atas das sessões regulares e extraordinárias.
De todas as formas de controle, o principal instrumento para a doutrinação sistemática da igreja sobre o indivíduo é a Escola Dominical. Criada no século XVIII na Inglaterra para ensinar e cuidar de crianças em estado de semi escravidão, a Escola Dominical com o tempo passou a servir como instrumento de doutrinamento sistemático dos fiéis para que aprendessem a forma correta do comportamento exigido pela igreja.
Dessa forma, o protestantismo pode ser reduzido a um conjunto de afirmações, teses ou doutrinas que se ensina através desse instrumento eficaz de transmissão. Nela, o fiel estará exposto aos conceitos da fé repassados pela leitura denominacional da igreja. Para que se tenha a adesão completa do indivíduo ao sistema da Escola Dominical como entidade doutrinadora oficial e hegemônica, é preciso que se negue ao mesmo indivíduo o princípio protestante do livre exame da Bíblia, bem como negar a sua capacidade de aprender por si, por suas experiências de vida. A Escola Dominical torna-se uma ocasião privilegiada para reforçar os preceitos morais, culturais e sexuais por trás de uma aplicação bíblica previamente preparada. Em vista da metodologia aplicada nessas lições, conclui-se que a Escola Dominical também funciona como um freio para que o crente que porventura esteja apto a ler e interpretar sua Bíblia individualmente, fique desestimulado, pois que as ditas lições já vêm com a interpretação oficial. Por trás de cada lição e do currículo estudado, há um currículo oculto que acaba propiciando um tipo de dominação branda, imperceptível, internalizada pelo fiel, que acaba aceitando, defendendo, transmitindo a outros e defendendo o seu uso e metodologia.
Ida e vindas nos direitos humanos: o caso de Salvador
Tendo passado pela negação de alguns princípios liberais que ajudaram a forjar a ideologia protestante pela prática interna das comunidades locais, pode-se agora tentar demonstrar com outros exemplos que ilustram os mesmos procedimentos de negação e privação por parte da igreja com setores específicos da comunidade e que começam a frequentar o grupo.
Inicialmente, damos ênfase às conquistas na área dos direitos humanos. A história dos batistas no Brasil é farta em exemplos da luta pelos direitos humanos, como logo se verá. Com o crescimento do número de igrejas batistas e a membresia constituída na sua maioria de pessoas pobres, aliada às dificuldades legais de conseguir a compra de terrenos ou casas para suas reuniões, as igrejas criaram uma Comissão Predial. Essa medida serviu como um tipo de um banco empréstimo para as igrejas com menos possibilidades financeiras. Assim, fazia-se um empréstimo e paga-se ao longo dos meses.
Em um país pobre como o Brasil, enfrentando problemas como fomes ocasionadas pelas constantes secas, surtos de doenças e crises mundiais faziam com que as perspectivas do presente e as esperanças quanto ao futuro fossem quase nulas para as pequenas igrejas que nasciam. O relato a seguir, retrata o clima de desesperança do Brasil no final do século XIX e início do século XX:
Em 1919 a 1920 um surto de febre... Depois, crises de proporções monstruosas se abateram sobre o Brasil... a crise da Estrada de Ferro em 1927; a grande e terrível seca que vai de 1930 a 1933, quando a estiagem prolongada jogava as populações sedentas e famintas pelos caminhos estorricados do Nordeste; na mesma década houve a crise do café que deixou toda a região desolada... Sem contar que, anterior à década de 30, cujo palco maior foi São Paulo, traz profundas mudanças política para o Brasil, (ANDRADE, 1998, p. 90 apud ARAÚJO, 2006, p. 36).
Em virtude dos constantes momentos de crise, os documentos pesquisados mostram a preocupação das igrejas em fazer coletas e até mesmo destinar um caixa exclusivo para os pobres. Desde os seus primeiros dias no Brasil, o pobre mereceu cuidados no interior da igreja: “Até o 1º de julho 3$000 para os pobres”[2]. Em Salvador, por exemplo, a coleta para os pobres na igreja era realizada de maneira sistemática, todo mês, no domingo em que se realizava a ceia: “O irmão Taylor propoz que as contribuições da Egreja no Domingo da cêa fossem applicadas em favor dos irmãos pobres e enfermos, sendo para este fim entregues aos irmãos diaconos”[3].
A leitura das atas da igreja de Salvador no final do século XIX e início do XX, mostram, além da pobreza, que a presença de analfabetos entre os fiéis era elevado, e talvez fossem a maioria dos congregados ali. Tendo tal situação no seio da congregação local, a liderança batista abriu um espaço nas suas reuniões para a leitura oral de documentos considerados importantes para que todos, analfabetos ou não, mas principalmente estes, tomassem conhecimento do seu conteúdo e obedecessem: “Em seguida o mesmo irmão leo o pacto da Egreja, correspondente a obrigação dos irmãos, uns para com os outros”[4]. Sugeriu-se também que uma vez por mês se fizesse a leitura do pacto da membresia, para lembrar as obrigações dos membros: “Foi apresentado pelo irmão Hilário a opinião de ser necessário ter o nosso pacto ao menos uma vez por mêz sendo esta feita na noite da Ceia do Senhor; pelo motivo de muitos irmãos não saberem lêr”[5].
Ao mesmo tempo em que a igreja tentou responder ativamente aos desafios da pobreza e analfabetismo no seu meio, em outras áreas, porém, como as relações de gênero, agiu de forma bem diferente, pois que se mantinha de acordo com os ditames culturais de seus líderes. A igreja, direta ou indiretamente, acabou por fundir duas atitudes em suas práticas: se tornou mediadora ao mediatizar a interpretação da Bíblia, ao mesmo tempo em que homologou ao homem o papel de senhor de sua esposa, subtraindo, à mulher, o direito da posse e do uso da sua voz ao decidir e falar por ela nas reuniões da igreja. A democracia tinha lá suas limitações em virtude da ideologia de seus líderes.
Assim a interpretação oficial de uma igreja batista além de estabelecer relações de dominação do grupo sobre o indivíduo, revela também um espaço privilegiado para a manutenção do sistema de dominação e exclusão das mulheres na vida social por parte dos homens. Nos documentos examinados para a formulação deste artigo, vê-se que havia privilégios concedidos somente aos homens, ao passo que as mulheres recebiam um tratamento diferenciado: “Houve uma moção para que se reunissem os irmãos e se unissem em oração cada 3ª feira... tendo sido approvado por unanimidade de votos, como clasula de não ser como reunião da igreja, mas como membros reunidos, onde as irmans podem fallar”, pois que a igreja havia decidido que as mulheres não podiam falar em público:
“Foi interrogado por um irmão, porque as irmans não podião fallar nas secções? O senr. moderador declarou que na acta antecedente já tem uma reunião especial onde as Senras. podem fallar. Foi adiado este assumpto para outra sexção e submettido a consideração de todos os irmãos”[6].
Às mulheres lhes era vedada a participação ou voz em público, no entanto, eram contadas no quorum para a realização das seções da igreja. Portanto, estando uma mulher ausente por motivo ignorado, outra mulher deveria procurá-la: “tendo comprido seu dever a irman da commissão para procurar a irman Emilia Maria, a Senra. Bagby, foi desencarregada da dita”[7]. A relação de dominação masculina na igreja pode ainda ser observado até muitos anos mais tarde através do seguinte relato: “tratou-se da irman Saturnina e foi nomeada uma commissão das irmans a ella, pelo que o irmão Antonio Marques offereceu sua mulher, o irmão Borges a delle e o irmão João Baptista a delle”[8]. Além de oferecer a sua mulher, isto é, ter a voz de mando, de poder decidir o que sua mulher deve ou pode fazer, ao homem cabia também o papel de porta-voz de sua esposa, falar por ela, apresentar o relatório de alguma atividade da qual a mulher fora incumbida de fazer:
a commissão composta das irmans D. Faustina e D. Felismina para investigarem o proceder da irmã D. Maria Josepha declarou por intermedio do irmão Hilario, que a referida irmã não se quizera prestar de modo leal a administração das supra citadas... sendo levantada a moção pelo irmão Hilario, para ser eliminada a dita, o que foi unanimemente approvada[9].
Um outro exemplo do controle da igreja pode ser dado na chamada nominal que se fazia de seus membros. Por causa da chamada nominal, cada um tinha que justificar o motivo da sua ausência: “No dia 3 de julho do corrente anno as 7½ da noite... faltando as irmans senra. Bagby e snra. Maria Valentina por justa razão”[10]. A justa razão alegada da sra. Bagby deve ser a gravidez de um de seus filhos. Como a falta às reuniões regulares, e principalmente, à reunião de negócios da igreja, era uma demonstração de interesse ou não do indivíduo pela “causa” da igreja, os ausentes deveriam ser visitados por uma comissão constituída pela igreja para esse fim. A igreja resolveu “nomear uma commissão para procurar logar onde estar a irman Emilia Maria”[11]. Nessa mesma seção é registrado a aprovação do uso de um livro que caracterizaria uma vigilância maior sobre a vida dos faltosos: “Moção para tomar o nome da rua e numero da casa e nome dos membros para serem chamados nas secções ordinarias, e deve dar cada um noticia de si, ao menos uma vêz por mêz”. A ausência seria justificada, como acontecia às vezes, quando o fiel mudava para outra cidade: “feita a chamada dos membros vimos que faltaram 5... Mayre O'Rork, por ter a ultima se mudado desta provincia para a de São Paulo, indo em plena communhão com a Egreja”[12].
A partir dos dados disponíveis, depreende-se que, à semelhança da sociedade na qual está inserida, a igreja está organizada em critérios sociais discriminatórios. Como organização social, em nada difere de outros grupos da sociedade. Longe de demonstrar a igualdade pregada, ela reflete e consagra as divisões e preconceitos sociais existentes em sua sociedade. O exemplo a seguir ilustra o tratamento discriminante que existia na igreja:
A convite do irmão moderador e pastor Taylor, reuniu-se a egreja em sessão extraordinaria para ouvir as provas de fé ... do professor Antonio Correia Ramos Tupinambá... foi feita uma moção... foi approvada... Tambem foi apresentada a Senra. Maria Palmira Perª Gallo para o mesmo fim, a qual mostrou exhuberantemente a sua fé... mas não foi recebida para o baptismo por morar ainda na casa do seu ex-amasio, e como pretende casar-se com elle, a egreja aguarda o seu baptismo até que se effectue o seu casamento. O baptismo do primeiro foi celebrado no mesmo dia pelo Pastor Taylor no tanque da casa de cultos[13].
Uma análise das diferentes abordagens que existiram entre as classes sociais que compunham a igreja batista iniciante, apresenta-se revelador. Por exemplo, a forma se aplicava os estatutos e pactos a cada grupo dentro da igreja. Em igrejas menos abastadas e com pessoas intelectualmente menos privilegiadas, exigiu-se o cumprimento dos estatutos. Teixeira estudou a composição social dos crentes batistas da Bahia a partir de 1882 e sugeriu que grande parte da população batista, até os anos 50, poderia ser enquadrada nos setores menos privilegiados da sociedade. Com isso, o cumprimento e fidelidade aos estatutos constituíam-se o padrão para se julgar o comportamento do crente.
Ser membro de uma igreja batista passou a significar sujeitar-se à disciplina, interditos e punições. Como escreveu Peter Berger (1977, p. 193, apud ARAÚJO, 2006, p. 52):
As instituições... reservam-se o direito de não só ferirem o indivíduo que as viola, mais ainda o de repreendê-lo no terreno da moral... Geralmente exprime-se num estímulo bastante eficiente, representado pela sensação de vergonha e, por vezes, de culpa, que se apossa do infrator.
Exige-se do fiel para ser membro da igreja e assim continuar, que cumpra fielmente seus ditames. Como já visto, o que o adepto crê e faz, a maneira como interpreta a Bíblia é o corolário do monopólio que a igreja exerce sobre cada um através da doutrinação internalizada. À igreja cabe não apenas a negação da livre interpretação das Escrituras pelo membro, mas o monopólio da interpretação é de tal forma internalizado que, quando o indivíduo manuseasse o texto bíblico o faria a partir da mediação dos óculos denominacionais. O direito, que antes pertencia ao indivíduo, é entregue por este à igreja no ato da sua filiação. A partir de então, não exite direitos na filiação, somente deveres e obrigações. Na igreja, o direito é retirado do indivíduo para ser instalado na comunidade. O livro de Atas da igreja em Salvador registra o seguinte episódio que ilustra o que vimos afirmando:
Depois do culto da manhã... reuniu-se para tratar do mau procedimento da irman Angela Lessa, pois esta professando ser christan não tem vivido como Christo manda. A egreja tendo considerado n'este assumpto e conhecendo que a dita irman é indigna de ser membro d'este egreja de Christo, resolveu illiminal-a a bem da cauza de Christo, de accordo com a Santa Biblia. Foi feita uma moção n'este sentido e sendo favorecida foi approvada por unanimidade. O irmão Taylor pastor da egreja, pediu a todos os irmãos que não fallassem nem bem nem mal da mesma irman, mas que rogassem a Deus por ella...[14]
Dessa forma, um sistema de dominação pode ser sustentado por mecanismos ideológicos, ao se manter-se velado ao mesmo tempo em que contribui para a reprodução da ordem social e da permanência da dominação:
que tal sistema instaura quando dissimula sob a relação patente, garantida por ele, entre diplomas e cargos, a relação que ele registra sub-repticiamente, sob a aparência de igualdade formal... através da legitimação que fornece assim à transmissão desta forma de herança. Os efeitos ideológicos mais óbvios são aqueles que, para se exercerem, não precisam de palavras, mas do silêncio cúmplice[15].
Tendo visto a negação do direito de voz e voto às mulheres, resta mostrar como os direitos individuais foram tratados no sistema burocrático da igreja, ou seja, na composição da sua liderança. O governo da igreja batista local pertence, por princípio, a qualquer um dos seus membros. No entanto, sua prática revela, no fundo, a tendência em negar o princípio da participação igualitária de todos em função dos mais hábeis, dos financeiramente mais aquinhoados e dos intelectualmente mais dotados. Essa realidade é claramente expressada na denominação a partir da arquitetura e composição da direção da Convenção, também pode ser retratada na igreja local. A administração da igreja fica nas mãos de poucos. No início do movimento batista no Brasil, a liderança e decisões eram de competência do missionário. À igreja coube homologar a decisão autárquica do missionário que também se auto intitulou responsável por todas as igrejas de uma região. Quando o missionário não estava diretamente à frente do trabalho, lá estava um seu amigo que mantinha a estrutura de mando que o mesmo havia inaugurado. Teixeira escreveu (1975, p. 152 apud ARAÚJO, 2006, p. 62): “Como introdutores da doutrina no Brasil, esses homens sempre reservaram para si o papel orientador e coordenador do trabalho denominacional. Tudo lhes favorecia: o conhecimento mais profundo da doutrina, o melhor nível intelectual, o dinheiro”.
Tendo começado com adeptos das camadas mais pobres da sociedade, a igreja logo tenderá a assumir o papel de uma comunidade com pensamentos e atitudes de classe média. Isso tem a ver com uma moralidade interna e ideologia próprias, e, com isso, nega o direito à membresia aos economicamente menos favorecidos como já vimos. Teixeira (1983, pags. 151-2, apud ARAÚJO, 2006, p. 62) citou o caso de uma igreja na Bahia que recusou aceitar como membro um mendigo ou de repreender um dos membros que ainda mantinha o costume de mendigar:
Quanto à sua profissão, respondeu que devido ao seu estado físico, completamente aleijado, vive de esmolas, o que faz nos lugares populosos, em atenção aos transeuntes que lhe estendem a mão. O irmão J. F. fala sobre a profissão de fé do candidato dizendo que não seria contra a aceitação do mesmo, não fosse a sua profissão que torna o evangelho muito humilhante, e uma vez que a Igreja não poderá sustentar o candidato ou arranjar outra profissão, vota contra a aceitação do mesmo, estando porém a qualquer tempo disposto a aceitá-lo caso venha a arranjar outra ocupação mais lícita.
Com uma membresia pertencente à classe média, com um nome a zelar, a mendicância exercida por um dos seus futuros candidatos a membros tornaria a mensagem do evangelho indigna. Por isso, a recusa em aceitar o mendigo, ainda que nada tenha sido feito em seu favor para que saísse daquele estado. A responsabilidade de sair do estado em que se encontrava estava totalmente com o indivíduo. Daí, como afirmamos anteriormente: ao membro da igreja batista cabe a obrigação, à igreja, os direitos.
A igreja, ao enfatizar a democracia, nega à maioria da sua membresia o acesso e a participação nessa mesma democracia. Além disso, o direito individual é negado aos que estão privados de uma educação mínima. Participar de uma igreja inclui algumas responsabilidades que se exige dos adeptos; por exemplo, uma alfabetização mínima. Atividades como escrever (secretário de atas), ler (atas, relatórios da EBD, relatório financeiro, Bíblia, os cânticos), contar (tesouraria) e ensinar (pregar, ensinar na EBD), já eliminam parte substantiva da sua membresia, geralmente constituída de pessoas das classes mais baixas, e, por conseguinte, analfabeta. Eleger uma diretoria da igreja torna-se, por si mesma, uma atividade que, ao se propor democrática, resulta uma tarefa e um privilégio de poucos, e, por conseguinte, excludente. Não à toa a membresia de uma igreja tenha se associado à pessoas da classe média, pois só ela tem acesso aos dois principais instrumentos do culto batista: ler o livro – Bíblia e cantar os cânticos do Cantor Cristão, o hinário dos batistas lançado em 1901.
Ser protestante requer, portanto, ser instrumentado na leitura, pois é necessário ler os cânticos, a Bíblia, as lições da EBD, o jornal editado pelos missionários, os livros devocionais[16] e os folhetos com os quais faziam proselitismo. Mais, a participação direta no governo da igreja local e da denominação em particular exigia a criação de uma forma de acesso da população em geral e dos membros da igreja ao conteúdo do ensino, culto e pregação. Ensinar o povo era um imperativo que a própria religião impunha aos líderes.
Conclusão
Os autores estão cientes do perigo do anacronismo por detrás deste artigo. Reconhecemos que a situação no século XXI no interior da igreja batista não é o mesmo. No entanto, assim como no final do século XIX algumas respostas foram dadas a contento, outras necessidades se perpetuaram e reproduziram a sociedade de então, hoje, a igreja batista enfrenta desafios para os quais ainda não se achou solução, como a pobreza, corrupção, violência contra as minorias, ecologia e meio ambiente. Por outro lado, a mulher ainda está numa condição de inferioridade, tanto cultural, como social e eclesiástica. Recentemente Araújo demonstrou através dos textos “Presbiocracia”[17] e “Androdicéia”[18] que a questão da mulher na igreja batista continua praticamente igual como fora desde o princípio das primeiras congregações no Brasil.
Por outro lado, a igreja não apenas se mostrou não propositiva nas questões sociais e dos direitos humanos ao longo do século XX, como, através de um silêncio acachapante se escondeu, negando a sua vocação profética diante de tantos males sociais que caracterizaram o século XX. E, ao se calar, negou sua vocação para defender e avançar nas conquistas dos direitos humanos, ao passo que, se o ditado de que “quem cala, consente” está certo, a igreja homologou os regimes ditatoriais nos países chamados terceiro mundo, especialmente na América Latina, os massacres e as guerras contra as minorias ao longo deste século recentemente terminado.
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ABSTRACT
This article reviews the achievements in the field of Human Rights reached by the Protestantism and the scientific, educational and economic progress in Europe. It also analyzes the changes of Protestantism in the United States, becoming a denominational and conversion movement above all. In Brazil, it especially analyzes the Baptists, the result of deployment of the Protestantism of mission, salvation, escape and apology which focused on the salvation of man, and, even it has obtained some achievements in social areas and human rights, when did, was due to conversionist causes. Therefore, the actions analyzed in a historical context within a local congregation in Salvador, Bahia, in the late nineteenth century, show the contradictories of this group such as discrimination and aid to the poor, illiterate, women's use of work in the church, but a levy of silence, making them speak only by the intermediation of authoritative and authorizative voice of their husbands.
KEY-WORDS
Human rights, protestantism, church, membership, analfabetism, exclusion.
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[1] Ata da Igreja Batista de Jaguaquara, 4 de Agosto de 1928
[2] Acta 7ª – 3ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Julho de 1883
[3] Acta 62ª – 21ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 2 de Fevereiro de 1885
[4] Acta 68ª -23ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 6 de Abril de 1885
[5] Acta 103ª - 65ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Maio de 1886
[6] Acta 10ª – 6ª secção ordinaria da Primeira Igreja Batista da Bahia, 9 de Outubro de 1883
[7] Acta 18ª – 9ª secção ordinaria da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Janeiro de 1884
[8] Acta 86ª – 33ª secção ordinaria da Primeira Igreja Batista da Bahia, 7 de Dezembro de 1885. É possível encontrar interditos contra mulheres falando nas igreja batistas até a década dos vinte em pleno século XX, em Salvador (itálicos dos autores).
[9] Acta 162ª – 69ª secção ordinaria da Premeira Igreja Batista da Bahia, 12 de Maio de 1889
[10] Acta 7ª – 3ª secção ordinária, 1883
[11] Acta 17ª – 8ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 3 de Janeiro de 1884
[12] Acta 23ª – 10ª secção ordinária da Primeira Igreja Batista da Bahia, 14 de Fevereiro de 1884
[13] Acta 242 sessão extraordinária 142, 13 de Dezembro de 1892
[14] Acta 237 – Sessão extraordinaria 139, 3 outubro de 1892
[15] BOURDIEU, Pierre. In: CATANI, Afranio & NOGUEIRA, M. Alice, Escritos de educação. Petrópolis: Vozes. 2001, pags 193-213.
[16] Um dos livros devocionais mais lidos pelos batistas nos últimos três séculos foi o ensaio escrito por um batista inglês chamado John Bunyan, no século XVII: O Peregrino (Pilgrim's Progress). Depois da Bíblia, esse livro foi traduzido para mais de cem línguas. Carlos Dubois escreveu um ensaio sobre Bunyan por ocasião do término do seu curso de Teologia em Recife. O escrito foi publicado em forma de livro em 1968.
[17] ARAÚJO, J. P. G. Presbiocracia. Brasília, 26/ março/2009. Disponível em www.projetoamor.com/
[18] ARAÚJO, J. P. G. Androdicéia. Brasília, 04/ maio/2009. Disponível em www.projetoamor.com/
Autores:
Cláudia Heloisa Schmeiske da Silva é Bacharel em Letras/Francês pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho – Paraná, FAFIJA, (2001); Especialização em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Estadual de Londrina, UEL, PR, (2003); Especialização, em Psicopedagogia, pela Universidade Católica de Brasília, (2007); Mestre em Educação pela Universidade de Brasília, UnB (2007); Doutoranda em Educação pela Universidade de Brasília, UnB. Professora e Coordenadora do curso de Letras da Faculdade Evangélica de Brasília.
João Pedro Gonçalves Araújo é Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Brasília (1984); Bacharel em Filosofia pela Universidade de Brasília, UnB (1995); Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, UMESP, (2001) e Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília, UnB (2006), é pastor da Igreja Batista no Lago Sul (Brasília, DF) e professor na Faculdade Evangélica de Brasília (Letras e Pedagogia) e professor na Faculdade Teológica Batista de Brasília (Teologia), membro do conselho editorial da Revista Eletrônica da Faculdade Evangélica de Brasília.
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