Fiel batista apanha e pastor diz que biblicamente a mulher deve se submeter...

"Há abusos em nome de Deus"
Marília Camargo César*
Jornalista relata os danos do assédio espiritual
cometido por líderes evangélicos.
A igreja evangélica está doente e precisa de uma reforma. Os pastores se tornaram intermediários entre Deus e os homens e cometem abusos emocionais apoiados em textos bíblicos. Essas são algumas das afirmações polêmicas da jornalista Marília de Camargo César em seu livro de estreia, Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão), que será lançado no dia 30. Marília é evangélica e resolveu escrever depois de testemunhar algumas experiências religiosas com amigos de sua antiga congregação.



ÉPOCA – Por que você resolveu abordar esse tema?
Marília de Camargo César – Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que frequentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heroico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que tinha dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente.

ÉPOCA – O que você considera abuso religioso?
Marília – Meu livro é sobre abusos emocionais que acontecem na esteira do crescimento acelerado da população de evangélicos no Brasil. É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele diz: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa”. Então, essa mulher pede um conselho e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E usa a Bíblia para isso. Esse é um tipo de abuso que não está apenas na igreja pentecostal ou neopentecostal, como dizem. É um caso da Igreja Batista, que tem melhor reputação.

ÉPOCA – Seu livro questiona a autoridade pastoral. Por quê?
Marília – As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais (não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista), que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”. É a figura do profeta, do sacerdote, que existia no Antigo Testamento. No Novo Testamento, Jesus Cristo é o único mediador. Mas o pastor dessas igrejas mais novas está se tornando o mediador. Para todos os detalhes de sua vida, você precisa dele. Se você recebe uma oferta de emprego, o pastor pode dizer se deve ou não aceitá-la. Se estiver paquerando alguém, vai dizer se deve ou não namorar com aquela pessoa. O pastor, em vez de ensinar a desenvolver a espiritualidade, determina se aquele homem ou aquela mulher é a pessoa de sua vida. E ele está gostando de mandar na vida dos outros, uma atitude que abre um terreno amplo para o abuso.

ÉPOCA – Você afirma que não é só culpa do pastor.
Marília – Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho. A grande crítica de Freud em relação à religião era essa. Ele dizia que a religião infantiliza as pessoas, porque você está sempre transferindo suas decisões de adulto, que são difíceis, para a figura do pai ou da mãe, substituí­dos pelo pastor e pela pastora. O pastor virou um oráculo. Assim é mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para culpar pelas decisões erradas.

ÉPOCA – Quais são os grandes males espirituais que você testemunhou?
Marília – Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do diabo. Há pastores que afirmam que a terapia fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem de ser forte. E dizem isso apoiados em textos bíblicos. Afirmam que as emoções têm de ser abafadas e apenas o espírito ser fortalecido. E o que acontece com uma teologia dessas? Psicoses potenciais na vida das pessoas que ficam abafando as emoções. As pessoas que aprenderam essa teologia e não tiveram senso crítico para combatê-la ficaram muito mal. Conheci um rapaz com muitos problemas de depressão e de autoestima que encontrou na igreja um ambiente acolhedor. Ele dizia ter ressuscitado emocionalmente. Só que, com o passar dos anos, o pastor se apoderou dele.

ÉPOCA – Qual foi a história que mais a impressionou?
Marília – Uma das histórias que mais me tocaram foi a de uma jovem que tem uma doença degenerativa grave. Em uma igreja, ela ouviu que estava curada e que, caso se sentisse doente, era porque não tinha fé suficiente em Deus. Essa moça largou os remédios que eram importantíssimos no tratamento para retardar os efeitos da miastenia grave (doença autoimune que acarreta fraqueza muscular). O médico dela ficou muito bravo, mas ela peitou o médico e chegou a perder os movimentos das pernas. Ela só melhorou depois de fazer terapia. Entendeu que não precisava se livrar da doença para ser uma boa pessoa.


ÉPOCA – Por que demora tanto tempo para a pessoa perceber que está sendo vítima?
Marília – Os abusos não acontecem da noite para o dia. No primeiro momento, o fiel idealiza a figura do líder como alguém maduro, bem preparado. É aquilo que fazemos quando estamos apaixonados: não vemos os defeitos. O pastor vai ganhando a confiança dele num crescendo. Esse líder, que acredita que Deus o usa para mandar recados para sua congregação, passa a ser uma referência na vida da pessoa. O fiel, por sua vez, sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher ou porque arrumou um emprego. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para legitimar essas práticas.

ÉPOCA – Você afirma que muitos dos pastores não agem por má-fé, mas por uma visão messiânica...
Marília – É uma visão messiânica para com seu rebanho. Lutero (teólogo alemão responsável pela reforma protestante no século XVI) deve estar dando voltas na tumba. O pastor evangélico virou um papa, a figura mais criticada pelos protestantes, porque não erra. Não existe essa figura, porque somos todos errantes, seres faltantes, como já dizia Freud. Pastor é gente. Mas é esse pastor messiânico que está crescendo no evangelismo. A reforma de Lutero veio para acabar com a figura intermediária e a partir dela veio a doutrina do sacerdócio universal. Todos têm acesso a Deus. Uma das fontes do livro disse que precisamos de uma nova reforma, e eu concordo com ela.

ÉPOCA – Se a igreja for questionada em seus dogmas, ela não deixará de ser igreja?
Marília – Eu não acho. A igreja tem mesmo de ser questionada, inclusive há pensadores cristãos contemporâneos que questionam o modelo de igreja que estamos vivendo e as teologias distorcidas, como a teologia da prosperidade, que são predominantemente neopentecostais e ensinam essa grande barganha. Se você não der o dízimo, Deus vai mandar o gafanhoto. Simbolicamente falando, Ele vai te amaldiçoar. Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções.

ÉPOCA – No livro você dá alguns alertas para não cair no abuso religioso.
Marília – Desconfie de quem leva a glória para si. Uma boa dica é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como querer ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que se discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes. Cuidado.
REPORTAGEM de Kátia Mello, Revista ÉPOCA, 29 junho 2009 /N.580,pg. 69-70.
*Marília de Camargo César, 44 anos, jornalista, casada, duas filhas. Editora assistente do jornal O Valor, formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero .Seu livro de estreia é Feridos em nome de Deus (editora Mundo Cristão

Fonte: http://zelmar.blogspot.com/2009/06/ha-abusos-em-nome-de-deus.html

Comentários

#1 | 74 em 01/07/2009
Eu estava conversando sobre essa entrevista com meu irmão...
Os que não são evangélicos e a leram dificilmente saberão o que é ser pentecostal ou neopentecostal, mas inevitavelmente, quando olharem pra um templo Batista ou ouvirem falar de uma Igreja Batista, farão a relação com esta matéria.




Julyana
#2 | 74 em 01/07/2009
Oi Vital, Julyana e demais
Vocês podem não acreditar, mas não é difícil um conselho assim em nossas igrejas batistas também, a mulher ter que sofrer em nome da submissão ou, no final, a considerarem culpada pela agressão do marido porque ela não sabe conversar, não sabe amar, não cuida bem da casa, não é sábia para buscar a hora certa de falar com o “cidadão sensível” que reage com agressão física e/ou psicológica, moral na maioria das situações.
Por que é tão difícil para os evangélicos entenderem que marido e mulher têm que viver em entendimento e não em hierarquia?

Interessante a Revista Época publicar essa entrevista. A Época é da Globo. “Livra” as igrejas históricas e coloca “doença” em cima das neopentecostais: Renascer....Universal...dona da Record... Afinal, os históricos não ameaçam a audiência...
Abs
Pra. Zenilda
#3 | 74 em 01/07/2009
Quem é esta Marilia Camargo?.....
Ninguém pode fazer uma afirmação desta em função de um ou outro caso que tomou conhecimento. Generalizar é um grande erro!!!
Jogar pedra no próprio povo é um erro ainda maior. Conheço muitos pastores de igrejas "neopentecostais" e nunca ouvi ninguém falar isso sobre eles...são homens abençoados de igrejas abençoadas.
Pr. Gilson.
#4 | Athos em 01/07/2009
Depois das materias de adulação do JN vem essa entrevista em uma revista do mesmo grupo de comunicação.
Será que a autora do livro procurou a Época para ser entrevistada ou foi a Época que procurou a autora?
O que realmente há por tras dessas palavras?

"A igreja evangélica está doente e precisa de uma reforma"
Então são todas que precisam de uma reforma?

"É um caso da Igreja Batista, que tem melhor reputação. "
Não existe IGREJA BATISTA , mas igrejas batistas locais.
A boa reputação dos batistas vem de que época ?
E de qual grupo, dos liberais ou dos conservadores ?

"Lutero (...) deve estar dando voltas na tumba."
Essa autora evangélica nem em tom de brincadeira deveria usar isso em uma entrevista.

Concordo com a autora em um ponto quando diz:"A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que se discorde dela, porque é autoritária"
#5 | andre silveira em 01/07/2009
È muita pretensão dessa autora que prefere citar um doente como FREUD,do que teòlogos saudaveis e igrejas relevantes que fazem a obra de DEUS, e não sei o que lhe dà tanta autoridade para diagnosticar uma igreja enferma? Tenho pra mim, que se trata tão somente de uma estragegia de markenting, para vender livro..não posso levar uma pessoa assim à serio...pastor ANDRE SILVEIRA.
#6 | josias Cunha do Nascimento em 04/07/2009
A verdade é dura mais é realmente isto que vem acontecendo em várias Igrejas.
Pastores " colocando fardos nos outros os quais eles mesmos não suportam", e aí do irmão que ouse a discordar de alguma coisa, ele é logo taxado como rebelde, usam deste artíficou para armodarçar e calar aqueles que ele sabe que conhece a bíblia e não segue a homens.
Quando o Pr Gilson diz: um ou outro caso, querido Irmão eu conheco e posso testemunhar vários abusos cometidos em dezenas de Igrejas que adotaram esta filosofia.
A minha mesmo sofreu um duro golpe a pouco tempo e o responsável após 14 anos de ministério abençoador diz que viveu oprimido por todos estes anos e levado a um espírito o qual não é o Espírito Santo. montou uma igreja para ele.
Agora também estou com a irmã, não tenho pena dos que nestas "igrejas " congregam. els gostam de ser enganados, muitos seguem ao homem e não a Deus, eles idolatram estas pessoas e o fim delas é isto mesmo problemas e mais problemas emocionas.
Sinto saudade da minha amda Igreja Batista do Povo, em Vila Mariana, Pr.Eneas Togninni, Pr.Luiz e Pr.Ronald, o Pr. quando subia ao pulpito para pregar dizia:
Meus irmãos!!! na dúvida fiquem com a bíblia!!!Eu posso falhar e trazer algo que não seja de Deus, por isso busquem na palavra, escrava o que estou dizendo depois cheguem em casa, abra a bíblia pesuqise, ore, peça orientação a Deus. ( Fiquem sempre com a bíblia, porque ela é a palvra de Deus!!! Aleluia!!! ).
Nestas Igrejas é ao contrário eles dizem e você não pode duvidar nem questionar porque é um profeta de Deus que esta trazendo, interpretam como querem, manipulam como pode.
Eu quero que alguém me prove bíblicamente onde esta ecrito que para um jovem namorar tenha que pedir permissão aos gurus para aprovar o namoro;
Onde fica a palavra quando diz: Entrega os teus caminhos ao Senhor confia nele e o mais ele tudo fara...
Onde a bíblia diz que para ter uma benção do Senhor temos que fazer propósito em raspar as cabeças e vestir roupas de saco para demostrar humildade; sendo que a humildade vem de dentro para fora e não é um saco que vai dizer que você tem e nem uma cabeça raspada que vai te fazer ter compromisso.
É grande sim o número destas ceitas com estas doutrinas; digo ceitas porque não são e nunca serão Igrejas.

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